Empreendedores são cegos

Empreendedores são cegos

Existe uma famosa parábola hindu na qual um elefante foi apresentado a seis cegos que não sabiam o que era o animal. Ao tocá-lo, cada cego teve sua própria concepção do que era um elefante. O primeiro cego tocou a orelha do elefante e concluiu que o elefante se assemelhava a uma cortina. O segundo cego segurou a tromba e achou que o elefante era muito parecido com uma cobra. O terceiro cego abraçou a perna do elefante e disse que o elefante era como um tronco de uma árvore. O quarto cego, por sua vez, apalpando o torso do animal afirmou que o elefante era como uma grande parede. O quinto cego, ignorando todos os demais disse que o elefante era mais como uma corda, ao brincar com o rabo do elefante. Por fim, o sexto e último cego disse que todos estavam errados, pois o elefante, na verdade é como uma lança, conclusão obtida após se machucar com a ponta da presa de marfim.

Podemos imaginar que, se o animal fosse menor, os cegos teriam uma concepção mais acurada de como seria o animal. Assim como nesta parábola, as grandes empresas são vistas de forma diferente pelos diversos agentes que atuam em função da empresa. Para fornecedores, a empresa é uma fonte de receita, para um cliente, a mesma empresa ajuda a resolver um problema ou atender uma necessidade. Para o funcionário, esta empresa garante o sustento de sua família, o concorrente vê a empresa como o inimigo que precisa ser combatido. Como na parábola, todos estão certos, mas todos igualmente estão errados, pois só tem uma concepção unilateral da realidade.

Podemos afirmar com segurança que apenas o presidente da empresa, o sócio majoritário ou o empreendedor fundador são os que tem uma visão mais ampla para entender o que é a empresa e seu negócio? Alguns diriam que sim, mas eu diria que não. Um negócio nascente, tem baixo grau de incerteza, são poucos os funcionários, poucos clientes, poucos fornecedores, pouca complexidade, é um animal pequeno que está na palma da sua mão, no entanto ele é cego com relação ao entorno. O empreendedor ainda não tem domínio do que acontece no entorno do seu negócio: Concorrentes, fornecedores, parceiros, prestadores de serviços, etc. Sua falta de experiência e conhecimento da área dificultam uma visão ampla deste ‘elefante’, se limitando apenas ao que ele conhece.

Na medida em que o negócio cresce e se desenvolve, esta relação se inverte, o domínio do entorno aumenta, pois ele passa a conhecer os fornecedores, as regras, o setor, o mercado, o comportamento do cliente, os parceiros que valem mais a pena se aproximar, os aspectos legais, os especialistas do ramo, etc. Por outro lado, seu pequeno animalzinho cresceu e se tornou um elefante e ele não tem mais a visão do todo que tinha antes.

Agora, com mais de 200 funcionários, existem departamentos, funções, divisões de negócios, segmentação de mercado, controles financeiros e contábeis, estruturação de processos, fluxos operacionais, e o empreendedor não reconhece mais sua empresa. Como um cego, a sua visão da empresa se limita à perspectiva que consegue enxergar. Um empreendedor com formação técnica, por exemplo, olha apenas o produto e sua produção. Um empreendedor com formação comercial veria apenas os clientes e suas necessidades. Outro cego com formação em administração só vê os processos e controles financeiros.

Assim, todo empreendedor é cego, de uma ou de outra forma. Por outro lado, a consciência de que ele não tem a visão do todo é importante para ele não tomar decisões unilaterais. Contar com ferramentas de gestão que ajudam a olhar o negócio como um todo, como o Balanced Scorecard, e consultar sempre a sua equipe ajuda a ver as implicações das decisões estratégicas diante do todo que é a empresa e não apenas na sua enviesada versão.

Marcos Hashimoto

Doutor em Administração de Empresas pela EAESP/FGV, Professor pesquisador do Mestrado Profissional em Administração da Faculdade Campo Limpo Paulista. Co-fundador da Polifonia Escola Livre de protagonismo criativo. Sócio-fundador e tesoureiro da Associação Nacional de Estudos em Empreendedorismo e Pequenas Empresas. Professor em programas de MBA e educação executiva. Tesoureiro da Entrepreneurship Division da Academy of Management. Exerceu cargos executivos em multinacionais como Citibank e Cargill Agrícola. Coordenou do Centro de Empreendedorismo e foi Professor da FAAP e do Insper. Foi professor da Business School São Paulo, ESPM, EAESP/FGV, onde coordenou a Competição Internacional de Planos de Negócios, o Moot Corp Latin America. É colaborador do Instituto Empreender Endeavor e Colunista do site da revista Pequenas Empresas Grandes Negócios, do Portal Administradores e do Portal Santander Empreendedor. Autor dos livros: 'Espírito Empreendedor nas Organizações', 'Lições de Empreendedorismo', 'Práticas de Empreendedorismo' e 'Plano de Negócio em 40 Lições'. Autor do software de Plano de Negócios SP Plan do Sebrae-sp/FIESP. Foi professor visitante da Universidade do Texas em San Antonio e Universidad de los Andes na Colômbia e professor mentor do programa REE Fellows da Universidade de Stanford. Tem artigos publicados em revistas acadêmicas e congressos internacionais e prêmios de educação empreendedora pela Endeavor e pelo Global Consortium of Entrepreneurship Centers.

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