Verdadeiros líderes conhecem pessoas

Verdadeiros líderes conhecem pessoas

Quando fui gerente em uma grande multinacional passei por alguns momentos difíceis, um deles que eu não desejo para ninguém foi um processo de demissão em massa, na qual perdi 30% da minha equipe. O grande desafio nestas situações nem é a condução das demissões em si, mas resgatar a moral dos remanescentes, afinal os que se foram, se foram, é passado, mas os que ficam precisam levantar a cabeça e tocar a vida. Minha tarefa era mostrar a todos que o pior já havia passado e que eles eram sobreviventes por um motivo: Eram bons e mereciam continuar na empresa e para isso, era preciso continuar demonstrando maturidade e ajudar a empresa a retomar o crescimento para que momentos como este nunca mais fossem necessários.

Por mais que tentasse, independentemente de meus esforços e minhas palavras nos meus discursos de motivação, o pessoal ainda estava deprimido pelos companheiros que perderam. Não é difícil compreende-los, afinal, nestes momentos paira um sentimento de insegurança, de injustiça, de traição, que não se supera da noite para o dia. Eles se questionavam o tempo todo, e com razão, porque vestir a camisa da empresa? Porque se matar para dar o melhor de si se, de uma hora para outra, sem aviso prévio, tudo pelo qual você batalhou pode ruir injustificadamente?

Eu não tinha tempo a perder, as pessoas já viveram seus lutos e precisavam levantar a cabeça e tocar o barco. Para tentar levantar o ânimo da galera resolvi marcar um churrasco no clube de campo da empresa, no interior de São Paulo. Marquei em um sábado, organizei tudo, trazendo o que havia de bom e do melhor. Historicamente, nossos churrascos eram invejados pelos outros departamentos, sempre com muita animação, jogos, música. As pessoas sempre voltavam para a semana revigorados e com a disposição em alta. Desta vez não foi o que aconteceu. Durante o churrasco, as pessoas continuavam de cabeça baixa, pouco conversando entre si. Um ou outro fazia piadas, mas logo percebia que o clima não estava para piadas nem qualquer outro tipo de brincadeira.

É curioso, estavam todos presentes. No início eu achei que ia dar certo, mas depois me dei conta que, naquela altura da situação, ninguém ousaria faltar neste churrasco, todos foram a contragosto. Eu não sabia mais o que fazer, parecia que a ideia era boa, mas o tiro estava saindo pela culatra. A discrepância entre o objetivo do evento e o resultado aparente parecia piorar ainda mais a situação. Chegava a ser constrangedor qualquer tentativa minha, do chefe deles, do representante legal do carrasco, de tentar animar as pessoas. Eu já estava vislumbrando as pessoas indo embora depois de comer porque já tinham cumprido sua obrigação de estar lá para segurar seu emprego, um péssimo motivo para quem queria resgatar a motivação.

Foi então que aconteceu algo inesperado. Tatiana era uma garota de 23 anos, recém-formada em Engenharia da Computação e que havia acabado de ser efetivada na nossa equipe. Ela foi até o carro do amigo e voltou com um violão. Sentou em um canto e começou a dedilhar alguma coisa. No começo ninguém ouviu por causa do som alto, mas passou um tempo e dois amigos se juntaram a ela. Logo alguém baixou o som para ouvi-la melhor. Vieram mais pessoas e ela, se sentindo mais confiante, começou a cantarolar algumas músicas.

Eu só observava, atento na reação das pessoas. Parecia haver um movimento grupal de convergência das atenções na direção da única coisa que parecia fazer sentido em toda aquela encenação do churrasco da empresa. Mais pessoas se aproximavam e começaram a cantar junto com ela. Não passou muito tempo, talvez uma meia hora e o clima já era diferente. Em pouco tempo, Tatiana protagonizou uma das maiores viradas de humor em grupo que eu já presenciei. As pessoas estavam em volta dela, cantando alto, dançando, fazendo fila para pedir músicas para ela. Logo as piadas começaram a surgir, as risadas altas dominavam o ambiente, as pessoas se abraçavam e, já um pouco alteradas pela bebida, juravam lealdade umas às outras e repetiam uns para os outros que eram vencedoras e sobreviventes. As risadas se misturavam a choros compulsivos, pessoas que finalmente se abriram e se expuseram, expurgando toda a aflição vivida nos tempos difíceis.

Eu nem ousava me aproximar. Continuei de longe, como uma figura institucional que poderia estragar tudo se ousasse se misturar neste momento. Consciente disto, e tentando captar toda a experiência como um importante aprendizado, usei o momento para refletir bastante e descobri algumas coisas que tomei como lições de liderança.

Em primeiro lugar, descobri que ninguém motiva ninguém. Não é oferecendo coisas que as pessoas vão se motivar. Oferecer festas, recompensas, prêmios, não passa de estímulos e incentivos, mas nunca motivação. A motivação vem de dentro da pessoa. A pessoa precisa querer fazer e não fazer em troca de alguma coisa. Eu estava errado em achar que um churrasco iria resgatar a motivação das pessoas. No final foi o que aconteceu, mas não foi por causa do que eu ofereci, mas pelo significado que as pessoas atribuíram a algo que não representava a organização e nem estava na agenda.

Em segundo lugar, vi que o verdadeiro valor das pessoas não é o que está na descrição do cargo, mas nos talentos ocultos que tornam cada funcionário único no grupo. A Tatiana era uma Analista de Sistemas Junior, assim como mais outros 10 funcionários da equipe com o mesmo cargo. Pelo que eu me lembre, não está escrito na descrição de cargo dela que é preciso saber tocar violão. Também não me lembro de ter colocado no seu plano de metas para o ano resgatar a moral do time. No entanto, só a Tatiana conseguiu o que eu, como líder, não consegui. Uma jovem de 23 anos a quem eu nunca atribuiria este feito, mas que, mesmo inconscientemente, trouxe muito valor para todo o time.

Assim são os protagonistas, são pessoas que enxergam além do óbvio, que não veem diferença entre suas atribuições profissionais e seus talentos pessoais. Colocam tudo de si em uma tarefa que julgam importante, e sabem que podem fazer a diferença com tudo o que carregam dentro de si e não só o que o cargo formalmente exige deles. São pessoas que assumem as rédeas de seu futuro, sabem que, com determinação e perseverança, podem conseguir tudo o que querem e não precisam pedir permissão para tornar realidade suas causas.

Perdido em minhas reflexões, nem percebi que Caio, meu fiel escudeiro e braço direito, se aproximou. Com um largo e bonito sorriso no rosto, logo vi que ele percebeu o mesmo que eu. Deu dois tapinhas no meu ombro e perguntou o que eu achava de tudo aquilo. Pensei um pouco e respondi: ‘Talvez o maior ganho nesta tarde tenha sido o meu e não da equipe. De hoje em diante, serei um líder diferente, pois hoje descobri que existem pessoas por trás de cada profissional que tenho na minha equipe e cada pessoa pode carregar algo de único que posso estar subestimando’.

Marcos Hashimoto

Doutor em Administração de Empresas pela EAESP/FGV, Professor pesquisador do Mestrado Profissional em Administração da Faculdade Campo Limpo Paulista. Co-fundador da Polifonia Escola Livre de protagonismo criativo. Sócio-fundador e tesoureiro da Associação Nacional de Estudos em Empreendedorismo e Pequenas Empresas. Professor em programas de MBA e educação executiva. Tesoureiro da Entrepreneurship Division da Academy of Management. Exerceu cargos executivos em multinacionais como Citibank e Cargill Agrícola. Coordenou do Centro de Empreendedorismo e foi Professor da FAAP e do Insper. Foi professor da Business School São Paulo, ESPM, EAESP/FGV, onde coordenou a Competição Internacional de Planos de Negócios, o Moot Corp Latin America. É colaborador do Instituto Empreender Endeavor e Colunista do site da revista Pequenas Empresas Grandes Negócios, do Portal Administradores e do Portal Santander Empreendedor. Autor dos livros: 'Espírito Empreendedor nas Organizações', 'Lições de Empreendedorismo', 'Práticas de Empreendedorismo' e 'Plano de Negócio em 40 Lições'. Autor do software de Plano de Negócios SP Plan do Sebrae-sp/FIESP. Foi professor visitante da Universidade do Texas em San Antonio e Universidad de los Andes na Colômbia e professor mentor do programa REE Fellows da Universidade de Stanford. Tem artigos publicados em revistas acadêmicas e congressos internacionais e prêmios de educação empreendedora pela Endeavor e pelo Global Consortium of Entrepreneurship Centers.

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