Uma metáfora sobre a jornada do empreendedor

Uma metáfora sobre a jornada do empreendedor

Imagine a seguinte cena. Você está parado, de pé, à noite e em meio a uma espessa névoa. Não consegue enxergar um palmo diante do nariz. Sabe que existe uma estrada a sua frente e acredita que esta estrada pode leva-lo ao destino desejado, mas não tem certeza, pois não consegue enxergar, não sabe quanto tempo vai levar e não sabe que obstáculos encontrará.

Esta é uma imagem que representa figurativamente o empreendedor no momento em que decide começar um novo negócio. A névoa representa o seu grau de incerteza, quanto menos ele conhece sobre o setor, menos ele consegue vislumbrar a estrada que o levará ao sucesso do seu empreendimento.

Você tem receio de dar o primeiro passo à frente e isso é natural, afinal quem gosta de caminhar às cegas? Por isso, você contrata um consultor para fazer o plano de negócio da sua ideia e ter uma ideia mais clara sobre a estrada antes de dar o primeiro passo. O que você descobre, depois de gastar um bom dinheiro com este consultor, é que a névoa dispersou um pouco, mas mostrou que não existe um caminho, mas vários caminhos para chegar ao seu destino. Como escolher o melhor caminho? Impossível, pois a névoa continua lá, impedindo você de enxergar cada caminho mais à frente.

Mas você acredita muito neste caminho. Esta ideia de negócio que você teve é tão inovadora, tão diferente, que certamente ninguém fez nada parecido. Por isso, o caminho que você se sente mais atraído não passa de uma picada no mato, um caminho que ninguém usa e por isso, está coberto de mato que esconde os obstáculos. É preciso muita coragem para escolher este caminho no meio da névoa. O pior é que você está a pé, não tem muitos recursos para seguir esta trilha e vai ter que caminhar devagar.

Enfim, você toma coragem e dá o primeiro passo nesta estrada. Pede demissão do seu emprego, reúne suas economias e vai fazer um curso sobre o setor. Este primeiro passo corajoso se torna revelador, pois automaticamente a névoa se dissipou um pouco mais e você consegue enxergar meio metro a mais nesta estrada. O curso aclarou mais o futuro e revelou alguns obstáculos e curvas que você não esperava, mas tudo bem, será um pouco difícil contorna-los, mas você se sente preparado e com muita energia para enfrentá-los.

Você então percebe que, a cada passo dado, a névoa se dissipa mais e o caminho fica mais claro. O segundo passo é mais fácil, você conhece uma pessoa no curso que conhece bem o segmento e propõe a ele uma parceria, que pode evoluir para uma sociedade. Ele te mostra muitas coisas que vão surgir nesta estrada e você agradece a visão mais clara do futuro.

Você começa a caminhar com mais confiança, e a cada passo descobre que as pedras no caminho são maiores do que você achava quando começou a jornada. Na verdade, o que mudou foi o peso que você começou a carregar e não tinha se dado conta. De repente, você olhou nas suas costas e viu uma mochila cheia de tributos, clientes para atender, fornecedores para pagar, salários para empregados. A cada passo, a mochila parece pesar mais.

Finalmente você chegou a um ponto que consegue ver a estrada quase inteira. Ufa! Que alívio, pensou, agora você consegue ver o final da estrada e, se desaponta. A estrada não vai leva-lo ao destino pretendido. Com raiva, acaba se conformando, pois tinha que ir até aquele ponto para conseguir enxergar, mas agora pensa em tudo o que já caminhou e se vale a pena voltar tudo para pegar outra estrada. Procura atalhos à sua volta e acaba encontrando um que dá para aproveitar boa parte do que construiu para desenvolver outro negócio.

Esta nova estrada não é uma picada no mato como a outra. Outros já trilharam este caminho, mas tudo bem, o outro caminho era muito arriscado mesmo. O destino deste caminho também pode ser visto, não é tão inovador quanto o outro caminho, você percebe que existem outras pessoas caminhando a mesma estrada e alguns já chegaram ao destino e estão rindo à toa.

Você pensa o que fazer com quem já está na estrada. São concorrentes que você deve ser mais rápido para superá-los ou são companheiros de viagem, com quem valeria a pena se juntar para tornar a caminhada menos pesada? Resolve caminhar junto, conhece alguns, vê as afinidades e descobre que alguns estão indo de carro e te dão uma carona. Ele compartilha a estrutura física da empresa dele com você, e em troca, você oferece algo que lhe é caro, que são as competências do seu sócio especialista na área, que se sente muito mais confortável nesta estrada conhecida do que na trilha anterior.

O caminho parece ser mais fácil agora, você não caminha mais sozinho, além do parceiro e do sócio, você traz junto agora alguns funcionários bem competentes que te ajudam na caminhada, vê que alguns clientes também estão ao seu lado e querem te ajudar. Descobre também que existem pessoas que querem sabotá-lo, colocam propositadamente pedras para te atrapalhar. Embora leve um tempo para perceber isso, quando percebe não demora muito para se afastar deles.

Depois de alguns meses você consegue chegar ao seu destino. Parecia que não ia chegar nunca, que você ia ficar sempre no aperto, mas finalmente conseguiram atingir o ponto de equilíbrio e não precisa mais colocar dinheiro do bolso para manter o negócio. Os clientes são fieis e apreciam seu trabalho e seu produto. Os fornecedores são leais e comprometidos com seu negócio. Os funcionários são parceiros e fazem questão de dividir o peso da mochila.

O que acontece agora é que, ao chegar ao seu destino, você descobre que a estrada não acaba lá. Um destino tão almejado, tão esperado, era só o começo de outra estrada. A estrada passada chamava-se sobrevivência e a nova estrada que se descortina à sua frente chama-se crescimento. E você não pode se dar ao luxo de descansar sobre os louros da conquista mais recente. Olha fixo para a nova estrada, consegue vislumbrar alguns obstáculos bem maiores e mais complicados, olha para sua equipe… e dá o primeiro passo! De novo!

Marcos Hashimoto

Doutor em Administração de Empresas pela EAESP/FGV, Professor pesquisador do Mestrado Profissional em Administração da Faculdade Campo Limpo Paulista. Co-fundador da Polifonia Escola Livre de protagonismo criativo. Sócio-fundador e tesoureiro da Associação Nacional de Estudos em Empreendedorismo e Pequenas Empresas. Professor em programas de MBA e educação executiva. Tesoureiro da Entrepreneurship Division da Academy of Management. Exerceu cargos executivos em multinacionais como Citibank e Cargill Agrícola. Coordenou do Centro de Empreendedorismo e foi Professor da FAAP e do Insper. Foi professor da Business School São Paulo, ESPM, EAESP/FGV, onde coordenou a Competição Internacional de Planos de Negócios, o Moot Corp Latin America. É colaborador do Instituto Empreender Endeavor e Colunista do site da revista Pequenas Empresas Grandes Negócios, do Portal Administradores e do Portal Santander Empreendedor. Autor dos livros: 'Espírito Empreendedor nas Organizações', 'Lições de Empreendedorismo', 'Práticas de Empreendedorismo' e 'Plano de Negócio em 40 Lições'. Autor do software de Plano de Negócios SP Plan do Sebrae-sp/FIESP. Foi professor visitante da Universidade do Texas em San Antonio e Universidad de los Andes na Colômbia e professor mentor do programa REE Fellows da Universidade de Stanford. Tem artigos publicados em revistas acadêmicas e congressos internacionais e prêmios de educação empreendedora pela Endeavor e pelo Global Consortium of Entrepreneurship Centers.

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