Seja insensato

Seja insensato

Passamos nossas vidas buscando ser uma pessoa sensata e buscando a sensatez nas coisas à nossa volta. Nada mais natural, afinal é assim que se vive em sociedade. Não queremos lidar com pessoas diferentes, estranhas e esquisitas, e tampouco queremos ser pessoas estranhas, diferentes e esquisitas. Para ser aceito em um emprego, para fazer parte de uma comunidade, para criar um grupo de amigos, para ser admirado na família, temos que ser sensatos.

Muito bem, acontece que agora, no esplendor dos seus 30 anos (não quero generalizar, é claro, mas vamos assumir uma idade média para efeitos de exemplificação), você já passou desta fase, já tem amigos, já tem uma carreira em ascensão, está constituindo sua família, mas talvez alguns de vocês estejam pensando, ou sentindo, que falta algo e talvez você não esteja certo que a progressão na carreira seja exatamente o que você está buscando.

Hoje, mais do que em qualquer outro momento da história da civilização moderna, ter um negócio próprio se tornou uma opção de carreira cada vez mais procurada e justamente uma via alternativa para quem não acha que uma carreira em uma corporação seja o caminho mais adequado para o futuro que espera.

Acontece que, para ser empreendedor, a sensatez pode atrapalhar, pois ser sensato é fazer o comum, é fazer o que é esperado, é tomar decisões que todos tomariam. Quanto mais nos acostumamos com a sensatez, menos riscos estamos propensos a assumir. Bem, para começar um negócio próprio, assumir riscos é uma condição obrigatória. Certeza é um luxo ao qual o empreendedor não pode contar. Ele nunca vai ter certeza que o negócio vai dar certo antes de começa-lo. Nunca vai ter certeza se o ponto comercial é o mais adequado antes de experimenta-lo. Nunca vai ter certeza se o candidato vai ser um bom empregado antes de contratá-lo. Nunca vai ter certeza se o seu produto ou serviço vai ter qualidade antes de lança-lo. Nunca vai ter certeza se o mercado é o que imaginou antes de testá-lo.

Assumir as incertezas da aventura empreendedora e, consequentemente, os riscos inerentes a ela, é uma condição inevitável para o futuro empreendedor. Para ser um empreendedor bem-sucedido você terá que ser insensato de vez em quando, abandonar as certezas para se enveredar por caminhos inóspitos, desconhecidos e potencialmente perigosos. Ser insensato é ter a coragem de fazer diferente do que seu concorrente faz, pois só assim você vai se destacar. Ser insensato é explorar possibilidades que os demais não vislumbraram, pois só assim é possível inovar. Ser insensato é saber que vai errar e, com esta única certeza, estar de mente e espírito aberto para o aprendizado, pois esta é ainda a melhor forma de crescer e se desenvolver junto com o negócio – ou projeto – próprio.

Introduzir um pouco de insensatez no seu dia-a-dia para se acostumar com o perfil empreendedor pode ser difícil no começo, você vai chocar as pessoas com suas opiniões diferentes, você vai gerar descontentamentos quando não votar com a maioria, você vai surpreender seus amigos com atitudes inesperadas, você vai se sentir desconfortável a cada rompimento de um comportamento padrão esperado de sua parte. No entanto, os benefícios podem ser muito bons, posso assegurar que você vai se tornar uma pessoa mais criativa, você vai conseguir enxergar mais possibilidades em contextos onde só existia uma resposta certa, você vai conseguir ver novas nuances para as mesmas realidades que você estava acostumado e assim, estará ampliando suas perspectivas para vislumbrar um mundo muito mais rico e repleto de caminhos, todos eles interessantes, todos eles levando a destinos que você nem imaginava existir.

E sabe o que você provavelmente vai descobrir? Que o que era insensato para você faz todo o sentido para outras pessoas. Você vai descobrir que o insensato ou o sensato são apenas pontos de vista diferentes e que não existe de fato nada insensato e sim padrões que não se encaixam em determinados modelos mentais.

Desta forma, um francês deve achar insensato o brasileiro tomar banho todos os dias, assim como um americano acha que não faz sentido comer hambúrguer com garfo e faca. Um japonês pode não entender porque americanos adoram carros grandes e brasileiros acham estranho os ingleses gostarem de cerveja quente.

Ser insensato significa apenas buscar outros pontos de vista, outras formas de abordar as mesmas realidades na busca por soluções criativas e inusitadas. Não existe inovação sem um mínimo de insensatez, por isso, quer empreender ou inovar? Seja insensato!

Marcos Hashimoto

Doutor em Administração de Empresas pela EAESP/FGV, Professor pesquisador do Mestrado Profissional em Administração da Faculdade Campo Limpo Paulista. Co-fundador da Polifonia Escola Livre de protagonismo criativo. Sócio-fundador e tesoureiro da Associação Nacional de Estudos em Empreendedorismo e Pequenas Empresas. Professor em programas de MBA e educação executiva. Tesoureiro da Entrepreneurship Division da Academy of Management. Exerceu cargos executivos em multinacionais como Citibank e Cargill Agrícola. Coordenou do Centro de Empreendedorismo e foi Professor da FAAP e do Insper. Foi professor da Business School São Paulo, ESPM, EAESP/FGV, onde coordenou a Competição Internacional de Planos de Negócios, o Moot Corp Latin America. É colaborador do Instituto Empreender Endeavor e Colunista do site da revista Pequenas Empresas Grandes Negócios, do Portal Administradores e do Portal Santander Empreendedor. Autor dos livros: 'Espírito Empreendedor nas Organizações', 'Lições de Empreendedorismo', 'Práticas de Empreendedorismo' e 'Plano de Negócio em 40 Lições'. Autor do software de Plano de Negócios SP Plan do Sebrae-sp/FIESP. Foi professor visitante da Universidade do Texas em San Antonio e Universidad de los Andes na Colômbia e professor mentor do programa REE Fellows da Universidade de Stanford. Tem artigos publicados em revistas acadêmicas e congressos internacionais e prêmios de educação empreendedora pela Endeavor e pelo Global Consortium of Entrepreneurship Centers.

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