A experiência nunca envelhece

A experiência nunca envelhece

Hoje vou tecer alguns comentários sobre o filme ‘Um senhor estagiário’ que esteve em cartaz nos últimos dois meses. O filme conta a história de uma empreendedora da internet, Jules Ostin, interpretada por Anne Hathaway e sua relação com um senhor aposentado, Ben Whitaker, ex-executivo de uma grande empresa que encontra na oportunidade de uma vaga para estagiários seniores uma forma de preencher o vazio que surgiu depois da morte de sua esposa. Esta vaga é justamente na empresa de Jules.

No começo, perdido por voltar a trabalhar e justamente em uma startup de internet, cercado por jovens e envolto a tecnologia por todos os lados, Ben tem uma certa dificuldade para se encontrar. Acaba por se aproximar da empreendedora e de forma espontânea e não invasiva, a despeito de toda sua experiência profissional, vai cativando Jules com sua personalidade afável e acolhedora.

A primeira lição empreendedora que o filme traz é sobre a dura realidade de toda empresa. Em algum momento, o negócio se tornará maior do que o próprio empreendedor e mesmo a contragosto, ele precisará contratar um executivo para cuidar da empresa. Este é um dilema ao mesmo tempo inevitável e terrível para o empreendedor, que tirou a empresa do chão, a viu crescer e agora precisa se afastar para que ela continue crescendo. Podemos fazer uma analogia com nossos filhos. A empresa é como filhos, precisam de espaço para ter uma vida independente da nossa. É nossa responsabilidade coloca-la no mundo, mas não podemos alimentar a esperança de que nossos filhos continuarão conosco por toda suas vidas.

Esta não é uma condição obrigatória, pois também é esperado que o empreendedor evolua em suas competências de gestão na mesma proporção que seu negócio cresce, mas é um processo de aprendizado e transformação que muitos não conseguem acompanhar. As competências necessárias para iniciar um empreendimento são bastante distintas das competências necessárias para fazer um negócio existente se desenvolver. Um negócio nascente conta com poucas pessoas, tem que construir tudo do zero, tem muito improviso, aprendizado pela prática e pelo erro, pouca gente para gerir, relações de confiança e personalizadas e poucos objetivos e metas de longo prazo, dado o ambiente dinâmico e altamente mutável. Já uma empresa estabelecida não tem a mesma liberdade para cometer erros, é bem mais complexa, precisa de regras e controles, conta com muitos funcionários que nem todos conhecem e precisa ter uma visão de longo prazo para que o planejamento ajude as pessoas a coordenar as atividades entre as áreas e funcione de forma coesa e integrada.

Nem sempre o empreendedor percebe quando precisa se afastar, mas os sinais são claros, como a dificuldade de saber tudo o que acontece na empresa, tarefas atrasadas, funcionários aguardando orientação, reclamações de parceiros, etc, mas nem sempre o empreendedor as percebe, ou quer perceber. Contratar um executivo para fazer o que o empreendedor faz é quase que uma demissão. Vários fatores levam à rejeição do empreendedor por esta ideia, um deles é a dificuldade de imaginar uma vida distante do seu negócio e outro muito comum é a falta de confiança de que alguém vai conseguir tocar o negócio tão bem quanto ele próprio.

No filme fica bem claro o incômodo de Jules com esta situação e sua dificuldade em encontrar uma pessoa que demonstre que vai manter os mesmos valores e princípios que ela sempre cultivou. No fundo, ela não quer contratar ninguém e encontra defeitos em todos os candidatos que lhe são apresentados. Com o passar do tempo a verdade vai se instaurando em sua mente e ela passa a perceber a racionalidade desta transição. Muitos empreendedores nunca receberam qualquer formação em gestão e aprenderam sobre negócios na prática, com seus próprios erros. Um executivo com experiência em grandes empresas tem a cancha de quem sabe organizar e coordenar atividades, tarefas, metas e interesses dos acionistas, clientes e funcionários em negócios mais complexos. A falta de experiência do empreendedor fica evidente com o crescimento do negócio.

A segunda lição tem a ver com esta dificuldade de encontrar um executivo. Desde o início do negócio, o empreendedor dá a sua marca em tudo que diz respeito à empresa. Esta é sua grande vantagem em comparação com a vida de empregado. O empreendedor dita as regras, estabelece os princípios, forma uma cultura de acordo com sua visão e valores e a empresa nasce e cresce reforçando estes aspectos, tornando-se parte de seu DNA. No filme vemos claramente a importância de alguns valores para Jules. Logo na primeira cena, ela está atendendo um cliente pelo telefone que se queixa de algo no site. Dá a impressão que ela é uma atendente de call center e só depois nos damos conta que é a própria dona do negócio que faz questão de gastar alguns minutos para interagir diretamente com o cliente. Outra de suas preocupações é o cuidado e carinho em orientar suas funcionárias sobre a melhor forma de embalar as mercadorias, ela encomendou o próprio produto para ver como chegava em sua casa. Estes cuidados demonstram o amor e a paixão do empreendedor pelo negócio que acaba fazendo parte da cultura da empresa, fazendo parte do jeito de trabalhar de Jules, mas ao mesmo tempo, dando indicações para as pessoas a sua volta e, consequentemente, toda a empresa, sobre valores, crenças e princípios que regem o dia-a-dia da empresa. Outros indícios que demonstram isso no filme: Atenção dada aos funcionários, andar de bicicleta dentro da empresa, inconformismo com a bagunça em uma das mesas, etc.

A terceira lição está relacionada com a decisão de Anne de não mais contratar um executivo para substitui-la. Jules melhora suas competências de gestão, aprende a liderar equipes, supera suas dificuldades e talvez nem ela saiba porque, mas a resposta está no seu estagiário, o Ben. De forma não invasiva, Ben entra no dia-a-dia de Anne e começa a perceber algumas coisas. No seu humilde papel de um mero estagiário, ele procura ajudar sem se intrometer, percebe que ela está em desequilíbrio, mas não se envolve. Nos momentos em que está próximo, procura ser discreto e economiza palavras. Mesmo assim, a brilhante atuação de Robert de Niro constrói um personagem que consegue influenciar sem ser percebido, por meio da empatia vai costurando relações com Jules e com as pessoas a sua volta. Vai ganhando respeito e admiração, trabalha na clandestinidade para protege-la, inclusive substituindo o motorista dela, que estava alcoolizado.

Poucos percebem o papel que Ben desempenha na sua influência sobre Jules, mas ele atua como seu mentor. Um mentor é uma pessoa mais velha, que detém uma boa bagagem de experiência, às vezes muitas vezes maior do que o próprio empreendedor (leia mais no meu artigo na PEGN). O mentor ajuda o empreendedor em suas decisões difíceis, compartilha sua ampla experiência para ajudar o empreendedor nos seus pontos mais fracos. Uma pessoa próxima do empreendedor, nas suas relações pessoais, que esteja disposto a ajudar o empreendedor sem necessariamente ganhar nada em troca. A ajuda que o mentor presta não é operacional, não é de um coach ou um consultor, mas de um amigo. O mentor interage com o empreendedor, ouve bastante, emite opiniões concisas e dá espaço para que o empreendedor aprenda e se desenvolva, mesmo que para isso, seja necessário deixar que o empreendedor cometa alguns erros neste processo.

Graças a Ben, Jules amadurece, aprende a conciliar suas prioridades, melhora sua relação com os funcionários, resolve problemas pessoais e ganha mais autoconfiança, a ponto de descobrir que nenhum CEO vai conseguir manter o mesmo carinho e paixão que ela dedica ao negócio e que ela mesma não vai saber o que fazer quando sair da operação do dia-a-dia. Talvez este seja o principal elemento da delicadeza e beleza de ‘Um senhor estagiário’, retratada na tagline do filme: A experiência nunca envelhece.

Marcos Hashimoto

Doutor em Administração de Empresas pela EAESP/FGV, Professor pesquisador do Mestrado Profissional em Administração da Faculdade Campo Limpo Paulista. Co-fundador da Polifonia Escola Livre de protagonismo criativo. Sócio-fundador e tesoureiro da Associação Nacional de Estudos em Empreendedorismo e Pequenas Empresas. Professor em programas de MBA e educação executiva. Tesoureiro da Entrepreneurship Division da Academy of Management. Exerceu cargos executivos em multinacionais como Citibank e Cargill Agrícola. Coordenou do Centro de Empreendedorismo e foi Professor da FAAP e do Insper. Foi professor da Business School São Paulo, ESPM, EAESP/FGV, onde coordenou a Competição Internacional de Planos de Negócios, o Moot Corp Latin America. É colaborador do Instituto Empreender Endeavor e Colunista do site da revista Pequenas Empresas Grandes Negócios, do Portal Administradores e do Portal Santander Empreendedor. Autor dos livros: 'Espírito Empreendedor nas Organizações', 'Lições de Empreendedorismo', 'Práticas de Empreendedorismo' e 'Plano de Negócio em 40 Lições'. Autor do software de Plano de Negócios SP Plan do Sebrae-sp/FIESP. Foi professor visitante da Universidade do Texas em San Antonio e Universidad de los Andes na Colômbia e professor mentor do programa REE Fellows da Universidade de Stanford. Tem artigos publicados em revistas acadêmicas e congressos internacionais e prêmios de educação empreendedora pela Endeavor e pelo Global Consortium of Entrepreneurship Centers.

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